domingo, 26 de julho de 2009

Ajudar e ser ajudado - parte 2

Por que eu fazia aquilo por ela?

Em uma viagem a Bolívia e Peru, minha primeira internacional, estava nos arredores de La Paz em uma van, seguindo para um sítio arqueológico. Estava sentada no fundo e minhas acompanhantes mais a frente. Eu estava sofrendo horrores com a altitude. A cabeça doída e a sensação de enjoo era terrível. Eu sou bastante durona. Estava morrendo de vontade de vomitar e segurando. Suava gelado mas não iria vomitar em público nem que a vaca tossisse.

Abri a janela um tiquinho (estava muito frio e eu não queria incomodar ninguém) e pus o bico pra fora pra poder respirar um pouco melhor. Do meu lado estava um casal de senhores argentinos. A senhora notou e me perguntou se eu estava passando mal. Eu disse que sim e ela me disse que era estudante de herbologia (?), me sacou uma bolsa com folhas de coca, me deu algumas e me ensinou como colocar na boa (não é pra mastigar e sim colocar entre os dentes e a bochecha e esperar dissolver). Me falou do remédio local que se compra na farmácia para males de altitude (Soroche - santo remédio!) e ficou cuidando de mim o resto do dia. Nos encontramos, sem combinar, por toda a viagem Bolívia-Peru, mesmo indo por caminhos diferentes e ela sempre preocupada comigo.

Noutra viagem, no Chile, estava com 2 amigos e fomos pro altiplano, a 4300m de altitude. Estava bem quando paramos pra fazer uma caminhada e ver lavas de um vulcão que havia dividido um lago ao meio. Desci, dei um passo e todo o mundo girou a minha volta. Senti vertigem e chamei o guia, que me deu uma aspirina. Fiquei um tempo parada enquanto ele falava do lugar e melhorei. Quando ele chamou pra seguirmos dei mais uns passos e o estômago veio na boca, outras coisas querendo sair por outros lugares, tudo ao mesmo tempo. Uma sensação de que estava explodindo de dentro pra fora. Tudo escureceu e eu sentei imediatamente no chão pressentindo um desmaio. Chamei o guia de novo e disse que não tinha condições de seguir. Ele me mandou esperar a van que me levaria ao encontro deles do outro lado.

Meus amigos me perguntaram se eu estava bem e eu, durona, disse que sim. Eles começaram a seguir com o grupo. Uma das últimas pessoas, uma peruana toda enfeitada que tinha me chamado a atenção na van pela, serei sincera, bizarrice de suas roupas e maquiagem, voltou e perguntou ao guia o que estava acontecendo. Ele explicou e disse que tinha que me seguir com o grupo. A peruana nem piscou e disse que ele podia ir que ela ficaria comigo.

Fiz a mesma cara que a canadense de Cancun fez pra mim. Disse a peruana que ela iria perder o passeio já pago, que é uma das vistas mais maravilhosas do Chile. Ela apenas me disse que seu marido estava fotografando tudo e que ela não se importava. Piorei um pouco e tive que me deitar no chão no meio do deserto andino. Ela me emprestou sua boina (estávamos a sol apino), sentou do meu lado, abriu a bolsa bizarra, retirou um vidro de álcool pra eu cheirar (abre as vias respiratórias), uma pomada mentolada e ficou fazendo massagem no meu rosto (ela era massagista) e me deu o único Soroche que ela tinha. Quis abraçá-la e chorar. Ficamos aguardando a van uma meia hora, ela me contou sua vida (uma linda história entre ela e seu marido) e depois me escreveu um email contando o fim de sua viagem.

Voltando então a pergunta do primeiro post: por que eu fiz aquilo pela canadense? Porque algumas pessoas já haviam feito muito mais por mim. Desconhecidos. Pessoas, como eu, viajando. Curtindo férias. Mas sensíveis o bastante pra perceber que alguém precisa de ajuda e generosos o bastante pra doarem o que tinham, mesmo sem serem solicitados.

Para mim, essa é a maior de todas as lições que eu aprendi viajando. E viajantes são uma espécie particular, que se lançam em outros mundos, em outras culturas e em outras línguas. E nos metemos nas mais inimagináveis situações.

Precisamos mais do que nunca uns dos outros.

PS: Resumi essa história pra canadense e disse que, quando ela começasse a viajar mais, perceberia isso. E um dia seria a vez dela de ajudar alguém. Ela conseguiu embarcar no último minuto. Voltei pro meu check-in com a sensação de dever cumprido e lembrando a Deus pra anotar meu pontinho no caderno dele.... hehehe...

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