Por que eu fazia aquilo por ela?
Em uma viagem a Bolívia e Peru, minha primeira internacional, estava nos arredores de La Paz em uma van, seguindo para um sítio arqueológico. Estava sentada no fundo e minhas acompanhantes mais a frente. Eu estava sofrendo horrores com a altitude. A cabeça doída e a sensação de enjoo era terrível. Eu sou bastante durona. Estava morrendo de vontade de vomitar e segurando. Suava gelado mas não iria vomitar em público nem que a vaca tossisse.
Abri a janela um tiquinho (estava muito frio e eu não queria incomodar ninguém) e pus o bico pra fora pra poder respirar um pouco melhor. Do meu lado estava um casal de senhores argentinos. A senhora notou e me perguntou se eu estava passando mal. Eu disse que sim e ela me disse que era estudante de herbologia (?), me sacou uma bolsa com folhas de coca, me deu algumas e me ensinou como colocar na boa (não é pra mastigar e sim colocar entre os dentes e a bochecha e esperar dissolver). Me falou do remédio local que se compra na farmácia para males de altitude (Soroche - santo remédio!) e ficou cuidando de mim o resto do dia. Nos encontramos, sem combinar, por toda a viagem Bolívia-Peru, mesmo indo por caminhos diferentes e ela sempre preocupada comigo.
Noutra viagem, no
Chile, estava com 2 amigos e fomos pro altiplano, a 4300m de altitude. Estava bem quando paramos pra fazer uma
caminhada e ver lavas de um vulcão que havia dividido um lago ao meio.
Desci, dei um passo e todo o mundo girou a minha volta. Senti vertigem e
chamei o guia, que me deu uma aspirina. Fiquei um tempo
parada enquanto ele falava do lugar e melhorei. Quando ele chamou pra
seguirmos dei mais uns passos e o estômago veio na boca, outras coisas
querendo sair por outros lugares, tudo ao mesmo tempo. Uma sensação de
que estava explodindo de dentro pra fora. Tudo escureceu e eu sentei
imediatamente no chão pressentindo um desmaio. Chamei o guia de novo e
disse que não tinha condições de seguir. Ele me mandou esperar a van que
me levaria ao encontro deles do outro lado.
Meus
amigos me perguntaram se eu estava bem e eu, durona, disse que sim. Eles
começaram a seguir com o grupo. Uma das últimas pessoas, uma peruana
toda enfeitada que tinha me chamado a atenção na van pela, serei
sincera, bizarrice de suas roupas e maquiagem, voltou e perguntou ao
guia o que estava acontecendo. Ele explicou e disse que tinha que me seguir com o grupo. A peruana nem
piscou e disse que ele podia ir que ela ficaria comigo.
Fiz
a mesma cara que a canadense de Cancun fez pra mim. Disse a peruana que
ela iria perder o passeio já pago, que é uma das vistas mais
maravilhosas do Chile. Ela apenas me disse que seu marido estava
fotografando tudo e que ela não se importava. Piorei um pouco e tive que
me deitar no chão no meio do deserto andino. Ela me emprestou sua boina
(estávamos a sol apino), sentou do meu lado, abriu a bolsa bizarra,
retirou um vidro de álcool pra eu cheirar (abre as vias respiratórias), uma pomada mentolada e ficou
fazendo massagem no meu rosto (ela era massagista) e me deu o único Soroche que ela tinha. Quis abraçá-la e chorar. Ficamos aguardando a van
uma meia hora, ela me contou sua vida (uma linda história entre ela e
seu marido) e depois me escreveu um email contando o fim de sua viagem.
Voltando
então a pergunta do primeiro post: por que eu fiz aquilo pela
canadense? Porque algumas pessoas já haviam feito muito mais por mim.
Desconhecidos. Pessoas, como eu, viajando. Curtindo férias. Mas
sensíveis o bastante pra perceber que alguém precisa de ajuda e
generosos o bastante pra doarem o que tinham, mesmo sem serem
solicitados.
Para mim, essa é a maior de todas as
lições que eu aprendi viajando. E viajantes são uma espécie
particular, que se lançam em outros mundos, em outras culturas e em
outras línguas. E nos metemos nas mais inimagináveis situações.
Precisamos mais do que nunca uns dos outros.
PS:
Resumi essa história pra canadense e disse que, quando ela começasse a
viajar mais, perceberia isso. E um dia seria a vez dela de ajudar
alguém. Ela conseguiu embarcar no último minuto. Voltei pro meu check-in
com a sensação de dever cumprido e lembrando a Deus pra anotar meu
pontinho no caderno dele.... hehehe...
