sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Armário - Luiz Fernando Veríssimo

Me deu uma vontade de postar isso.... É de um livro chamado "Poesia numa hora dessas?"

Eu queria, senhora
ser o seu armário
e guardar os seus tesouros
como um corsário.
Que coisa louca:
ser seu guarda-roupa!
Alguma coisa sólida
circunspecta e pesada
nessa sua vida tão estabanada.
Um amigo de lei
(de que madeira eu não sei).
Um sentinela do seu leito
- com todo respeito.
Ah, ter gavetinhas
para suas argolinhas.
Ter um vão
para seu camisolão
e sentir o seu cheiro, senhora
o dia inteiro.
Meus nichos
como bichos
engoliriam suas meias-calças,
seus sutiãs sem alças,
e tirariam nacos
dos seus casacos
E no meu chão,
como trufas,
as suas pantufas...
Suas echarpes, seus jeans;
seus longos e afins.
Seus trastes
e contrastes
Aquele vestido com asa
e aquele de andar em casa.
Um turbante antigo.
Um pulôver amigo.
Bonecas de pano.
Um brinco cigano.
Um chapéu de aba larga.
Um isqueiro sem carga.
Suéteres de lã
e um estranho astracã.
Ah, vê-la se vendo
no meu espelho, correndo.
Puxando, sem dores,
os meus puxadores.
Mexendo com o meu interior
- a procura de um pregador.
Desarrumando meu ser
por um prêt-a-porter...
Ser o seu segredo,
senhora,
e o seu medo.
E sufocar
com agravantes
todos os seus amantes.

domingo, 26 de julho de 2009

Ajudar e ser ajudado - parte 2

Por que eu fazia aquilo por ela?

Em uma viagem a Bolívia e Peru, minha primeira internacional, estava nos arredores de La Paz em uma van, seguindo para um sítio arqueológico. Estava sentada no fundo e minhas acompanhantes mais a frente. Eu estava sofrendo horrores com a altitude. A cabeça doída e a sensação de enjoo era terrível. Eu sou bastante durona. Estava morrendo de vontade de vomitar e segurando. Suava gelado mas não iria vomitar em público nem que a vaca tossisse.

Abri a janela um tiquinho (estava muito frio e eu não queria incomodar ninguém) e pus o bico pra fora pra poder respirar um pouco melhor. Do meu lado estava um casal de senhores argentinos. A senhora notou e me perguntou se eu estava passando mal. Eu disse que sim e ela me disse que era estudante de herbologia (?), me sacou uma bolsa com folhas de coca, me deu algumas e me ensinou como colocar na boa (não é pra mastigar e sim colocar entre os dentes e a bochecha e esperar dissolver). Me falou do remédio local que se compra na farmácia para males de altitude (Soroche - santo remédio!) e ficou cuidando de mim o resto do dia. Nos encontramos, sem combinar, por toda a viagem Bolívia-Peru, mesmo indo por caminhos diferentes e ela sempre preocupada comigo.

Noutra viagem, no Chile, estava com 2 amigos e fomos pro altiplano, a 4300m de altitude. Estava bem quando paramos pra fazer uma caminhada e ver lavas de um vulcão que havia dividido um lago ao meio. Desci, dei um passo e todo o mundo girou a minha volta. Senti vertigem e chamei o guia, que me deu uma aspirina. Fiquei um tempo parada enquanto ele falava do lugar e melhorei. Quando ele chamou pra seguirmos dei mais uns passos e o estômago veio na boca, outras coisas querendo sair por outros lugares, tudo ao mesmo tempo. Uma sensação de que estava explodindo de dentro pra fora. Tudo escureceu e eu sentei imediatamente no chão pressentindo um desmaio. Chamei o guia de novo e disse que não tinha condições de seguir. Ele me mandou esperar a van que me levaria ao encontro deles do outro lado.

Meus amigos me perguntaram se eu estava bem e eu, durona, disse que sim. Eles começaram a seguir com o grupo. Uma das últimas pessoas, uma peruana toda enfeitada que tinha me chamado a atenção na van pela, serei sincera, bizarrice de suas roupas e maquiagem, voltou e perguntou ao guia o que estava acontecendo. Ele explicou e disse que tinha que me seguir com o grupo. A peruana nem piscou e disse que ele podia ir que ela ficaria comigo.

Fiz a mesma cara que a canadense de Cancun fez pra mim. Disse a peruana que ela iria perder o passeio já pago, que é uma das vistas mais maravilhosas do Chile. Ela apenas me disse que seu marido estava fotografando tudo e que ela não se importava. Piorei um pouco e tive que me deitar no chão no meio do deserto andino. Ela me emprestou sua boina (estávamos a sol apino), sentou do meu lado, abriu a bolsa bizarra, retirou um vidro de álcool pra eu cheirar (abre as vias respiratórias), uma pomada mentolada e ficou fazendo massagem no meu rosto (ela era massagista) e me deu o único Soroche que ela tinha. Quis abraçá-la e chorar. Ficamos aguardando a van uma meia hora, ela me contou sua vida (uma linda história entre ela e seu marido) e depois me escreveu um email contando o fim de sua viagem.

Voltando então a pergunta do primeiro post: por que eu fiz aquilo pela canadense? Porque algumas pessoas já haviam feito muito mais por mim. Desconhecidos. Pessoas, como eu, viajando. Curtindo férias. Mas sensíveis o bastante pra perceber que alguém precisa de ajuda e generosos o bastante pra doarem o que tinham, mesmo sem serem solicitados.

Para mim, essa é a maior de todas as lições que eu aprendi viajando. E viajantes são uma espécie particular, que se lançam em outros mundos, em outras culturas e em outras línguas. E nos metemos nas mais inimagináveis situações.

Precisamos mais do que nunca uns dos outros.

PS: Resumi essa história pra canadense e disse que, quando ela começasse a viajar mais, perceberia isso. E um dia seria a vez dela de ajudar alguém. Ela conseguiu embarcar no último minuto. Voltei pro meu check-in com a sensação de dever cumprido e lembrando a Deus pra anotar meu pontinho no caderno dele.... hehehe...

Ajudar e ser ajudado - parte 1

Outro dia eu estava relembrando algo que me aconteceu em uma das minhas viagens. Estava em um hotel em Cancun - México. Era meio dia, minha passagem era para as seis da tarde e, como tinha tempo, disse ao porteiro do hotel (lotado de jovens americanos) que estava a procura de alguém para dividir o táxi até o aeroporto. Logo ele voltou me dizendo que havia 3 americanas querendo rachar o táxi, mas que elas só tinham, juntas, a metade do valor. Pra quem ia pagar inteira, resolvi aceitar e ajudar as meninas.

Elas tinham cerca de 18 anos ou até menos. Primeira viagem pra outro país, primeira viagem sozinhas. Torraram todo o dinheiro no hotel. No táxi, perguntei que horas eram seus voos. Uma e meia da tarde !!! Não sabiam qual era o terminal e uma não sabia nem qual era sua empresa aérea. Pedi ao taxista para pisar fundo.

Todo meu lado canceriano aflorou e me senti responsável pelas meninas na mesma hora. Recolhi o dinheiro do táxi, que na verdade não era nem a metade, e acompanhei duas das meninas (americanas) ao check-in. Conseguiram embarcar, me agradeceram chorando, gritaram pra fila que eu as havia ajudado, rs rs rs... Perdi a outra de vista e fui pegar a van para o outro terminal.

Na van encontrei a outra menina, que era canadense, e literalmente a segui até o check-in, pois ela não queria a MINHA ajuda. Ela tinha um jeito bem orgulhoso e nem reparava em mim. Quando chegamos ao ckeck-in havia 2 pessoas na fila. Na vez dela, o atendente informou, em espanhol, que o voo estava lotado e o check-in encerrado e repetiu para ela num inglês sofrível. Ela começou a chorar e perguntar quando era o próximo voo (no dia seguinte), se teria que pagar (provavelmente sim), que não tinha dinheiro nem cartão de crédito. Eu me adiantei dizendo ao atendente, em espanhol, que ela só tinha bagagem de mão e se ele não conseguiria encaixá-la no vôo.

Brasileiras são sucesso de público e crítica no México. Enquanto eu negociava com o atendente, a menina desatou a gritar e a bater no balcão exigindo alguém que falasse inglês. O atendente ficou com os olhos arregalados e continuou a conversar comigo, dizendo que iria esperar a pesagem da aeronave e que então tentaria embarcá-la e que era pra gente esperar no fim do balcão para que as outras 2 pessoas que estavam na frente dela na fila, mas que tinham bagagem para despachar, não vissem o que ele estava fazendo por ela.

Pedi em inglês que ela me seguisse e que eu iria explicar. Ela continuou gritando, dizendo que não havia pedido minha ajuda, não iria a lugar algum, etc... Nessa hora me lembrei do filme Jerry Maguire e soltei a famosa frase: Help me to help you !!! Ela me seguiu a contragosto e, cinco passos a frente eu parei e expliquei a ela o que havia acontecido.

Ela desatou a chorar de novo, me abraçar e se desculpar pelo seu mau temperamento. Ficamos conversando e ela ficou absolutamente chocada quando eu disse que era brasileira (o descaso era tanto que nenhuma delas perguntou sequer meu nome) e pelo fato de eu falar 3 línguas. Quando eu achava que já tinha acontecido de tudo o atendente veio pegar os documentos dela e pediu o passaporte. Ela não tinha!!! O atendente disse que isso não era possível e eu pedi o documento que ela apresentou na vinda - tipo uma carteira de identidade. Dei ao atendente e disse a ele que se ela tinha vindo com ela, iria voltar com ela.

Nisso já era uma da tarde e eu comecei a desconfiar que o atendente não conseguiria embarcá-la e comecei a tentar acalmar a menina. Disse que, caso ele não conseguisse, que ela não se desesperasse porque eu tinha cartão de crédito e que a gente iria dar um jeito. Ela me olhou de um modo que era a própria interrogação e me perguntou por que eu fazia aquilo.

Contei isso tudo pra chegar nessa parte. Por que eu fazia aquilo por ela?

(continua no próximo post)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Primeira postagem e apresentação

Criei esse blog pra falar, literalmente, de viagens e de um tudo....
Das coisas que eu amo fazer, duas em especial são viajar e ler livros. Gasto dinheiro, volto cansada, mas nada me dá mais prazer do que ver lugares novos, conhecer gente nova, culturas novas, costumes, cheiros e texturas...
Viagens começam na escolha do lugar, no planejamento, na pesquisa e finalmente nas próprias experiências vividas, nas situações que são únicas a cada viajante.
Esse blog é uma mistura de álbum e diário de viagem pra não esquecer as histórias que ouvi e as experiências que vivi.