sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Armário - Luiz Fernando Veríssimo

Me deu uma vontade de postar isso.... É de um livro chamado "Poesia numa hora dessas?"

Eu queria, senhora
ser o seu armário
e guardar os seus tesouros
como um corsário.
Que coisa louca:
ser seu guarda-roupa!
Alguma coisa sólida
circunspecta e pesada
nessa sua vida tão estabanada.
Um amigo de lei
(de que madeira eu não sei).
Um sentinela do seu leito
- com todo respeito.
Ah, ter gavetinhas
para suas argolinhas.
Ter um vão
para seu camisolão
e sentir o seu cheiro, senhora
o dia inteiro.
Meus nichos
como bichos
engoliriam suas meias-calças,
seus sutiãs sem alças,
e tirariam nacos
dos seus casacos
E no meu chão,
como trufas,
as suas pantufas...
Suas echarpes, seus jeans;
seus longos e afins.
Seus trastes
e contrastes
Aquele vestido com asa
e aquele de andar em casa.
Um turbante antigo.
Um pulôver amigo.
Bonecas de pano.
Um brinco cigano.
Um chapéu de aba larga.
Um isqueiro sem carga.
Suéteres de lã
e um estranho astracã.
Ah, vê-la se vendo
no meu espelho, correndo.
Puxando, sem dores,
os meus puxadores.
Mexendo com o meu interior
- a procura de um pregador.
Desarrumando meu ser
por um prêt-a-porter...
Ser o seu segredo,
senhora,
e o seu medo.
E sufocar
com agravantes
todos os seus amantes.

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